quinta-feira, 20 de junho de 2024

terça-feira, 15 de junho de 2021

Sweet Tooth

 Oiê, que saudadeeee! A Netflix recentemente teve vários graus de sucesso com a narrativa em série de gênero puro - programas que vão fundo na surrealidade e encontram dentro dela algum nível de coração. Esses programas são menos parecidos com “Stranger Things”, que foi construída para ter um apelo amplo e quase universalmente compreensível, do que com “The Umbrella Academy”, um nicho assumidamente específico.




Dentro deste reino, “ Sweet Tooth ” é um passeio relativamente bem sucedido. A nova série da Netflix analisa um mundo, uma década após a chamada “Great Crumble”, uma pandemia de reestruturação da sociedade que coincidiu com uma mudança na espécie. Ninguém sabe em que grau, se é que existe, essa mudança está relacionada, mas todos os bebês nascidos desde o Crumble são hibridizados com animais, dando origem a bebês com características animais que a sociedade está mal preparada para lidar, apesar de sua fofura. O jovem Gus ( Christian Convery ), um menino com elementos de veado, incluindo grandes chifres, estava escondido na floresta com seu pai ( Will Forte ); repentinamente deixado por conta própria, ele entra na companhia de um andarilho solo ( Nonso Anozie, excelente e rude) e parte em uma aventura por uma América em ruínas e reconquistada.




A visão do programa de uma paisagem em processo ativo de devolução à natureza é tão convincente quanto sua representação, em flashback, do colapso da ordem social pode parecer mecânica. E seu esquema visual é projetado com um olhar cuidadoso para nos manter engajados, o que significa que cada híbrido é adorável e adorável de uma forma que não é desafiadora, mas agradável aos olhos. O programa não é inteiramente coisa de crianças, no entanto: uma subtrama sobre uma comunidade planejada de sobreviventes que assistem paranóica para novos casos virais foi surpreendentemente mastigável, especialmente vindo do que parece ser o fim de uma experiência pandêmica que deixou psíquico cicatrizes em nosso mundo real. 

(“Sweet Tooth”, baseado em uma série de quadrinhos que começou em 2009, filmou seu piloto em 2019; sua sala de escritores ocorreu em parte durante o Zoom pós-março de 2020.)




Esta série certamente não é perfeita: a narração de James Brolin tende a se apoiar em truísmos que dizem pouco que vale a pena conhecer. Os episódios podem ter um ritmo descontrolado. E para um espectador adulto solo, a jornada de Gus pode parecer um pouco previsível em alguns momentos. Mas para o tipo certo de criança, “Sweet Tooth” pode ser uma boa exibição em família; há complicações suficientes aqui para manter os pais intrigados sem fazer o show cair no puro absurdo por si só. A representação de jovens como literalmente uma espécie diferente de seus mais velhos, lutando por seu direito de existir em um mundo que não os entende, é uma metáfora um tanto simples, mas seria grosseiro negar seu poder elementar.





Durante todo o show, o show é feito com um grau surpreendente de curiosidade sobre como seriam as mudanças na sociedade em vários tipos de comunidades, e com uma imaginação fértil para arrancar. E enquanto visualiza um mundo transformado pela doença e pela dor, “Sweet Tooth” parece fundamentalmente leve ao toque e, bem, doce de intenção. Seu mundo dilacerado pela pandemia foi dilacerado, com certeza, e no rastro vem a dissensão - mas bondade e conexão também.


 A mudança oferece a oportunidade de reimaginar em grande escala como a vida pode ser ou ser, bem como pequenas oportunidades de se tornar realidade - encontrar a própria humanidade, mesmo usando chifres de veado.

Beijos

Por Jordan Prestes






segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Saúde mental

Fui convidado por uma empresa a dar uma palestra sobre saúde mental. Aceitei sem pensar muito. Sou psicanalista e devo saber o que é saúde mental. Quando a data se aproximava, pus-me a pensar e descobri que eu não sabia o que era saúde mental. Para uma empresa, quando é  que um funcionário tem saúde mental? Ele tem saúde mental quando os seus pensamentos e emoções não interferem no seu desempenho na empresa: não falta, produz, tem boas relações. A empresa usa para avaliar o seu funcionário os mesmo critérios de avaliação da "saúde de uma peça de uma máquina. 



Peça boa é aquela que não exige reparos e funciona sempre. Para que isso aconteça é preciso que a peça esteja totalmente ajustada à "ideia" da máquina. Assim, um funcionário com saúde mental é aquele cuja alma está ajustada á alma da empresa. Ajustamento produz contentamento. Aí comecei a pensar nos homens que tenho no meu coração. Foram todos desajustados e infelizes. Van Gogh, Water Benjamin e Maiokóvski cometeram suicídio. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. 


Então, as pessoas que amo não tinham saúde mental. Não eram ajustadas. Então, por que as amo? Pelas coisas que elas produziram. As pessoas ajustadas são indispensáveis para fazer as máquinas funcionar. Mas só as desajustadas pensam outros mundos. A criatividade vem do desajustamento. Imagine que nossa sociedade é louca. As evidências dizem que sim. Estar ajustado a essa sociedade é estar ajustado à sua loucura. Então, há um tipo de "saúde mental" que são lúcidos, que percebem a loucura da sociedade e sofrem com ela, desajustados, são os que verdadeiramente têm saúde mental. 

Rubem Alves

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Quem é você depois das tempestades da vida?

 “Ostra feliz não faz pérola” 

 Rubem Alves 

Nas palavras do próprio autor, o título refere-se a: “A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para se mesma: preciso envolver essa areia pontuada que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire pontas outras felizes não fazem pérolas. Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes a dor aparece como aquela coisa que tem o nome de curiosidade. 





E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada.

O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola.

Lição dada, a partir daí o autor trata de vários assuntos a partir da mesma temática: somos ostras que produzem pérolas. 

“Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. 
Só veem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si”.

( Rubem Alves)


sábado, 25 de julho de 2020

OBRIGADO AOS MEUS DIAS RUINS


Se mordomia fosse mais importante pra mim do que liberdade, teria morado na casa dos meus pais até casar. Se depois de 17 anos de casados eu e meu marido não tivéssemos reavaliado nossa escolha e nos separado, não teríamos vivido outras importantes relações amorosas. Se depois de uma década trabalhando em agências de propaganda eu não tivesse perdido o entusiasmo pela publicidade, não teria me arriscado a escrever para jornais. Se depois de duas décadas escrevendo para jornais eu não tivesse sentido o tédio batendo à porta, não teria arriscado ter um canal no YouTube e escrever um roteiro de cinema. 

Que sorte eu não ter sido feliz pra sempre.
Tenho muito a agradecer aos meus dias ruins. Foram os choros silenciosos, abraçada ao travesseiro, que me colocaram contra a parede: “por que você está se submetendo a essa dor?”. Ter ido atrás da resposta me fez movimentar a vida e trocar de planos.




Quando meu coração esteve apertado, não agendei exames cardíacos: recorri à poesia. Se compus alguns versos bem escritos, devo às angústias das paixões mal concluídas.
Cada vez que fui rejeitada, desenvolvi a humildade e reforcei meu lado bom.
Ando serena há bastante tempo, desde que aprendi que a felicidade instagramável é uma busca utópica e meio babaca: como ser feliz num país em desconstrução e com uma desigualdade indecente entre seus habitantes? Como ser feliz, se além do país à deriva, ainda temos que nos acostumar agora com novas regras de conduta social? E, saindo do geral para o pessoal: insônias, dívidas, desilusões, discussões: como?

O único jeito que conheço: desenvolvendo desde cedo o que se chama hoje de inteligência emocional, um guarda-chuva de múltiplos significados, mas que pra mim se resume a usar a finitude a nosso favor. Vamos morrer – não agora, não de covid-19 (sou otimista), mas um dia, aquele dia que otimismo nenhum adia. Então qual o sentido de obstruir ainda mais a vida? As pessoas fazem drama por bobagem, são competitivas, se acham melhores do que são, executam tarefas de forma relaxada, não assumem seus erros, não cuidam de seus afetos e reclamam, reclamam, reclamam. A cada manhã recebem o novo dia com pedras na mão.

Tenho também meus momentos em preto e branco, mas não desapareço de mim. Se for uma incomodação pontual, leio um livro, vou dar uma caminhada, espero o dia terminar. Se for mais grave, tento terapia, converso com amigos, faço mapa astral, ritual xamânico, troco os móveis de lugar, troco os pensamentos de lugar. Me desacomodo. Uso a instabilidade para inaugurar uma estabilidade nova em folha, outra versão da mesma vida. O meu “pra sempre” nunca foi feito de linhas retas nem de velocidade constante, e é por isso que minha sorte tem durado um bocado.


Por Martha Medeiros

Rouxinol


Eu nunca chamo seu nome, 
mas você está em mim como a música na garganta do rouxinol,
 mesmo quando não está cantando.

 Dulce Maria Loynaz


Cores sobre você


Se eu fosse pintar você, usaria todas as cores. 

Jordan Prestes