quarta-feira, 21 de junho de 2017

Machado de Assis



Lembro pouco de tudo que aprendi no colégio. Mas guardo firme na memoria aquela semana literária, aquela peça de teatro, o figurino, a cortina abrindo e a sala lotada.
Em 2008, interpretei, brilhantemente Pilar, em “Conto de Escola”, de Machado de Assis, que narra o primeiro contato de um menino com a corrupção e a delação. Tudo começa quando Raimundo, o angustiado corruptor, filho do mestre, oferece uma moeda a Pilar, seu colega de classe, em troca de umas lições de sintaxe. Curvelo, o delator, os denuncia ao professor e ambos, Raimundo e Pilar, são violentamente castigados com doze bolos de palmatória cada. 

Ninguém toca no livro mais bem escrito de Machado, o mais bem escrito em português, que é Memorial de Aires. 

Acho que Susan Sontag prefere Memórias póstumas de Brás Cubas porque é uma disquisição modelar de um homem, enquanto, pela atração dos opostos, prefiro Dom Casmurro. Capitu é tão indelével como madame Bovary. 

Não há um escritor dos EUA que tenha atingido a grandeza de Machado nas suas últimas obras. Poderia abrir-se aqui uma polêmica em favor de Henry James, mas eu acho superestimado e intraduzível, não faz sucesso em língua alguma exceto inglês, ao passo que Machado fica bem em qualquer língua .

Para encontrarmos rivais e superiores a Machado temos de ler os russos, alguns franceses e ingleses e claro, Proust. 

Jordan Prestes 

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